11.12.09

Estamos tão longe, mas continuamos tão perto (Diário de Bordo 1).

Dia 1 - Primeiro Impacto:
Embarcámos ontem.
Só vislumbro mar à minha frente e sofro bastante com os enjoos.
Todos os outros são muito mais experientes do que eu e sinto os seus olhares como setas nas minhas costas.
Estou completamente sozinho nesta imensidão de nada.

Mês 1 – Solidão:
O Capitão mandou-me lavar o convés. Tive de o fazer inúmeras vezes; todos os outros marujos arranjaram maneira de o sujar, rindo-se de mim com aqueles risos graves, bocas enormes abertas, deixando os dentes de ouro a descoberto.
A imagem não me abandona o pensamento e os seus risos ainda ecoam nos meus ouvidos, na minha mente.
Porque é que me fazem passar por esta humilhação se nem me conhecem?! Será que também não sentem o mesmo que eu? Será que não sentem a dor dilacerar o coração? Será que não notam o buraco que se abre no peito? A saudade mata-me por dentro e nada me ajuda a impedir que tal aconteça.

Mês 2 – Saudade:
Continua tudo na mesma; o tempo teima em não passar.
Como é possível, meu amor, que eu tenha forças para lutar contra a fúria dos oceanos mas não contra a falta que me fazes?
Precisava de ti aqui, Lauren, do meu lado. Precisava de sentir os teus braços a envolverem-me num daqueles abraços que me fazem ter a certeza que és minha.
E agora, longe de tudo e de todos, é que reparo em todos os pormenores. Tudo é bom do teu lado. Porque tivemos de nos separar? Será que é um teste ao nosso amor? Eu sei que estamos destinados e isto não irá mudar nada.
Amo-te e amar-te-ei sempre.
Sinto a tua falta.

Mês 3 - Delírios:
«Lauren, és tu? Estás aqui? Como? Porquê?»
«Chiu, não digas nada. Estamos juntos e nada nos irá separar.»
Ouve-se um estrondo; cego por instantes. Quando tudo passa vejo que desapareceste. As palavras foram ditas em vão. Chamo por ti; grito o teu nome desesperadamente na escuridão, até que alguém acaba com esta loucura:
«William, William, acorda!» - é aí que percebo que tudo não passou de um sonho.
Tu não vieste ao meu encontro e permaneces no sítio onde te deixei. Isso acalma o meu coração aflito. E é com este sonho que percebo que continuaremos juntos porque é isso que eu realmente quero!
E tudo muda: eu volto a ser o homem corajoso que outrora conheceste e percebi que afinal não estou sozinho: há quem veja que eu realmente existo neste navio.


Mês 4 - Tempestade:
Acordámos completamente sobressaltados com o balanço agitado do barco, com o barulho das ondas e com os gritos desesperados do Capitão.
Era altura de tomar uma posição!
Corremos todos ao convés e unimos esforços em prol da nossa sobrevivência; estamos todos no mesmo barco, literalmente.
No final da tempestade só se avistavam homens cansados, sem forças, mas vivos. Todo o nosso esforço não foi em vão!
E eu estava contente por estar vivo mas, acima de tudo, por saber que podia voltar para ti. Imagina que tudo isto acabava aqui… Não era justo para nós.
E o facto de tudo ter acabado bem só confirma o que eu sinto: estamos mesmo destinados.

Mês 5 – Passado e Presente:
É engraçado como a vida pode mudar: há uns dias encontrava-me desesperado e atormentado pela distância e pela saudade.
Hoje sou um marinheiro. Um daqueles a sério, como sempre te disse que ia ser. Ao pensar nisto, lembro-me do teu sorriso quando te dizia tal coisa. E sempre soube que acreditavas em mim.
E se hoje sou o que sempre sonhei a ti o devo; devo-o pela tua compreensão, confiança e amor.
Sou tudo o que sempre desejei, tenho tudo o que quero; falta-me apenas abraçar-te e ter a certeza que tudo voltará a ser tal e qual como antes.
Estou quase a chegar, minha querida.
Anseio pelo nosso reencontro.

Mês 6 – Viagem de Regresso:
Não sei qual das viagens me parece mais longa: se a de ida ou a de volta.
Para passarmos o tempo, eu e os meus camaradas, à noite, bebemos, conversamos, vemos a dança das ondas e a luz do luar.
E, nem nesses momentos, me sais do pensamento.
É como se visse o teu rosto na lua e então sei que estás a pensar em mim. Isso arranca-me um sorriso dos lábios que brilha mais do que o luar na escuridão que eu vislumbro.
Entretanto vejo Terra e sei que amanhã serás minha de novo.

Mês 7 - Reencontro:
Acordo com Terra ao meu lado, mesmo do outro lado da pequena janela.
Uma emoção e euforia desmedidas começam a florescer dentro de mim. A ansiedade doma-me e só penso no quão perto tu te encontras; parece-me um concretizar de um sonho.
Toda a humilhação e desprezo iniciais por que passei em nada se comparam ao facto de teres estado tão longe de mim.
Mas, se virmos bem, estiveste sempre comigo; não abandonaste o meu pensamento nem por um momento que fosse.
Saímos.
Vejo rostos por todo o lado mas procuro-te por todas as ruas, como um louco.
E lá te vejo, ao longe, balançando a cabeça, procurando a minha figura por entre a multidão.
Quando os nossos olhares se cruzam é como se o tempo parasse. Somos só tu e eu, como antes éramos.
Corro para ti na ânsia de perceber que não é apenas um sonho. Mas nada mudou: continuas a olhar para mim com os teus olhos tão brilhantes como as estrelas que me iluminaram em tantas noites, e com o teu sorriso que me amparou em tantas tormentas.
Acabo nos teus braços, depois de um beijo que marca o início de uma nova etapa no nosso amor, que prometemos tornar eterno.
E é aí que percebo que tudo valeu a pena, que tudo está perfeito.


«No fundo, aquilo que nos guia, é essa imagem de um amor que está para além, de algo que queremos atingir e não sabemos bem o que é, e que alguns de nós têm esperança de poder vir a atingir depois desta vida. Um amor que por vezes vemos reflectido numa pessoa que brilha e nos entusiasma com o seu sorriso, alegria ou mundo interior, etc.
Mas, no fundo, é sempre isso que procuramos, nas viagens deste oceano infinito que é o Cosmos. (...)
Para além da história/romance, tem um grande significado filosófico. No fundo a filosofia, para grandes filósofos como Platão, Descartes ou St. Agostinho, é precisamente não nos esquecermos que, na confusão e na aparentemente falta de sentido da vida, há algo pelo que vale a pena lutar. Esse algo dizemos que é a "verdade", mas no fundo é só uma palavra para significar esse grande amor que achamos que temos à nossa espera e que nos guia. Todos estes filósofos de que falei procuravam a verdade neste sentido: de não perder a relação com esse algo que nos guia e nos conduz em todas as aventuras do nosso mundo.
A Ana, a meu ver, foi ao âmago da chamada filosofia Platónica (há muitas outras formas de encarar a filosofia).»

3 comentários:

nicole moraiis disse...

o texto mais tocante;
o texto que me encheu de borboletas na barriga de tão verdadeiro, de tão sentido que está.
sabes o que sinto.. sabes que estamos ambas na mesma situação, e ambas numa situação idêntica ao marinheiro do teu texto.
não há palavras suficientes para explicar a dor que sinto ao saber que não vejo com frequência (ou diria antes, diariamente) o teu sorriso, o teu olhar a brilhar .
não imagina ninguém aquilo que sinto. só tu . só tu sabes esta dor , só tu sabes senti-la do jeito que ela tem de ser sentida.
eu amo-te , e bastante . nunca podes duvidar disso.
amo-te VIDA! «333

andreia sofia disse...

meu deus. que perfeição de texto. é de quem? teu ? (:

beijo @

Cao muito mau (L) disse...

sabes bem que amei este texto, mesmo perfeição .. encontras-te a filosofia como nunca ninguem a encontrou !! (ja ganhavas um premio, porque nao é para todos)

amo-te bebecas (L)